“Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura” Mc 16,15

Crer na ressurreição dos mortos

Cardeal Odilo Pedro Scherer 01/11/2018  |  14:58:50

Um dos itens da pesquisa realizada em todas as paróquias da arquidiocese de São Paulo, em vista do sínodo arquidiocesano, refere-se à fé na ressurreição dos mortos: você crê na ressurreição dos mortos? As respostas revelaram que cerca de 25% dos católicos de São Paulo colocam em dúvida ou não creem na ressurreição dos mortos.

Isso, de certa forma, não surpreende uma vez que, na cultura contemporânea tendente ao materialismo, a fé na ressurreição dos mortos e na vida eterna parece absurda. E muitos cristãos e católicos também acabam pensando assim. No entanto, a questão deve levar a refletir sobre a nossa catequese e pregação: estamos anunciando a integralidade da mensagem do Evangelho? A fé na ressurreição de Jesus Cristo e na nossa ressurreição, “no último dia”, é parte essencial da mensagem cristã. A Igreja proclama, em seu “Credo”: creio na ressurreição da carne e na vida eterna.

No tempo de Jesus, os Saduceus também não acreditavam na ressurreição dos mortos, mas Jesus lhes ensinou que a ressurreição dos mortos, “pelo poder de Deus”, é segura. “Deus não Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mc 12,24). O próprio Jesus anunciou: “eu sou a ressurreição e a vida. Quem crer em mim, ainda que tenha morrido, viverá” (Jo 11,25). Na pregação dos apóstolos, sobretudo de São Paulo, a fé na ressurreição de Cristo e na nossa ressurreição futura é claríssima. “Como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é sem fundamento e também é sem fundamento a vossa fé. Mas, na verdade, Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram” (1Cor 12,14-20).

Desde o início do Cristianismo, e ao longo de toda a sua história, esta verdade encontrou resistência. Sempre houve o modo de pensar materialista, segundo o qual a vida humana não vai além da vida corporal neste mundo, e que não há o poder de Deus, capaz de ressuscitar os mortos. Havia também o pensamento da reencarnação, que é diferente da ressurreição dos mortos. E ainda hoje estão presentes as visões sobre a existência humana, que excluem a ressurreição dos mortos. Talvez este foi o aspeto mais contestado da fé cristã. Ao mesmo tempo, porém, a afirmação da ressurreição de Jesus e da nossa ressurreição corporal tornou-se uma das características marcantes da fé cristã, que a distingue de outras formas de crer e de pensar sobre a existência humana. Nós somos daqueles que creem na ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos e na nossa ressurreição futura, graças ao poder de Deus.

Na profissão de fé, nós proclamamos: “creio na ressurreição da carne”. Neste caso, “carne” designa o ser humano na sua condição frágil e mortal. Pelo nosso corpo, somos parte deste mundo perecível. O próprio Filho de Deus, vindo a este mundo, assumiu a nossa carne: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Com a “ressurreição da carne” afirmamos que, após a morte, não haverá apenas vida para a nossa alma espiritual e imortal, mas que também para nossos corpos, que se desintegram e voltam ao pó da morte. Eles também são destinados a receber vida nova e transfigurada (cf Rm 8,1).

Muitas são as perguntas que daí decorrem: quando isso acontecerá? Onde? Como? Por obra de quem? Para responder, é preciso relacionar as respostas com o conjunto da nossa fé cristã. Antes de tudo, isso não é obra do homem, mas do poder de Deus Trindade. O Deus Criador, em quem cremos, tem o poder de chamar os mortos à vida e o faz em vista da obra redentora que seu Filho realizou, para que “todos tenham vida, e vida plena” (cf Jo 10,10). E será “vida nova” para os nossos pobres corpos mortais, à semelhança da vida de Jesus ressuscitado, graças ao poder do Espírito Santo e vivificador. A ressurreição “dos mortos”, ou “da carne”, é a plenitude da nossa salvação. Deus não quer nos salvar apenas “um pouco”, mas plenamente, e nos chama a participar em corpo e alma da sua vida imortal e gloriosa. Isso está no centro da fé e da esperança cristã.

Quando isso acontecerá? Como será? Onde? É normal que nos coloquemos essas questões. No entanto, não devemos esquecer as palavras de Jesus: só Deus mesmo conhece os seus desígnios (cf Lc 21,7s). Não se trata de obra do homem, mas é graça salvadora de Deus. No Novo Testamento encontramos a expressão – “último dia”, ou “últimos tempos”: “quem vê o Filho e nele crê tem a vida eterna. E eu o ressuscitarei no último dia” (6,39; cf Jo 11,24; 12,48). A expressão não indica um “dia cronológico”, mas o momento da manifestação do poder de Deus. E o tempo de Deus não é igual ao nosso.

A comemoração de Finados, ou dos Fiéis Defuntos, é uma ocasião boa para reafirmarmos a nossa fé no Deus da vida. Ele quer também nós tenhamos vida plena para sempre.

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo 

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